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diasdechocolate

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Ciclos de vida

Os primeiros meses do ano foram....intensos. Uma nova porta profissional abriu-se, pensava eu para durar um pouco mais, mas fui obrigada a bater com ela antes que a saúde mental fosse afetada.

Foram diversas as situações que me faziam pensar no dia-a-dia nestas cinco ou seis semanas que trabalhei num hotel sénior, que é como quem diz, num lar para gente com dinheiro (muito dinheiro). Entre elas o tratamento dado aos clientes. É certo que os idosos são uma população susceptível a maus tratos (físicos ou psicológicos) devido ao estado de saúde mais frágil mas presenciar estes abusos é uma realidade dura mesmo tendo passado por outros locais onde as condutas eram semelhantes. A conclusão que tenho chegado é que, por muito que se pague, há sempre muita coisa que falta. Primeiramente, dignidade, privacidade, liberdade até....depois, o sentimento de pertença que se perde ao viver num espaço diferente daquele que se viveu, na maior parte dos casos, durante toda a vida. Das quase sessenta pessoas que lá vivem, creio que só encontrei três ou quatro que gostavam de lá estar, sendo que os critérios para gostar passam apenas por ter comida na mesa (e doces, de preferência), cama, roupa lavada e água quente para um banho. Chocava-me que num ambiente tão requintado a nível de infraestruturas houvesse tanta pobreza de caráter na sua gestão, tanta negligência no trato e no afeto e tanta prostração. Aqueles idosos passavam o dia entre o sofá e a cadeira do refeitório e, lá de vez em quando, num qualquer dia comemorativo de qualquer coisa, fazia-se uma festa só para fazer fotos que dessem boa publicidade no facebook. Lamentável!!

Ouvimos notícias de maus tratos a idosos, de idosos mal nutridos nas instituições e numa população senior doente e muito dependente de terceiros mas é a realidade que se proporciona nestes locais (na maioria, vá). Dei por mim a pensar muitas e muitas vezes no significado da vida para aquelas pessoas. Se há pensamento que me assusta é pensar na perda de capacidades e tentava imaginar-me como aquelas pessoas: sentada num sofá, todos os dias, sentindo-me abandonada e a olhar para as mesmas caras na expectativa da próxima refeição. Como poderiam ter qualidade de vida? Como poderiam nao desenvolver doenças degenerativas? Como poderiam não estar deprimidos? Choca-me esta indiferença, esta forma de cuidar despreocupada....Acredito que os anos de trabalho, o cansaço e a desmotivação potenciem estes comportamentos mas exige-se mais respeito por aquelas pessoas. E, infelizmente, há muita gente que vive do dinheiro e dos bens destas pessoas e continue a sua vida de forma luxuosa e desavergonhada! 

 

* É claro que há sítios maravilhosos onde os velhinhos são tratados como reis, onde os acarinham e os potenciam em vez de contribuirem para o declínio físico e cognitivo. O problema é que são raros!

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